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Itapecuru Mirim só reconheceu a Independência do Brasil quase 1 ano depois do Grito do Ipiranga

Conheça a batalha sangrenta travada por tropas portuguesas e brasileiras no solo itapecuruense em 1823

Alberto Júnior
Por: Alberto Júnior Fonte: Da Redação
07/09/2026 às 13h58 Atualizada em 07/09/2026 às 15h08
Itapecuru Mirim só reconheceu a Independência do Brasil quase 1 ano depois do Grito do Ipiranga
Foto colagem © Itapecurunotícias.com

Embora o príncipe herdeiro, D Pedro de Alcântara, tenha declarado independência do Brasil a Portugal oficialmente em 7 de setembro de 1822, a lealdade à Coroa Portuguesa permaneceu viva em determinadas partes do recem-nascido país.

No Maranhão, por exemplo, os laços familiares, o enorme número de portugueses residentes na capital e principais vilas do interior do estado, o comércio pujante com Lisboa e Porto, a proximidade com o velho continente que garantia boas relações com a metrópole serviram de pólvora no processo de reconhecimento da autoridade do imperador desta nova nação.

O sentimento de fidelidade ao rei D. João VI e à constituição portuguesa era manifestado abertamente pelas ruas, comércios, nas rodas de conversas e principalmente na imprensa da capital, São Luís.

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Muitas batalhas foram travadas entre tropas lusitanas e brasileiras, algumas evitadas pelo poder da diplomacia, outras chegaram a ser sangrentas. A vila de Itapecuru Mirim foi palco em 10 de junho de 1823, quase um ano depois do Grito do Ipiranga, de um confronto entre os ditos rebeldes e as tropas régias.

Este episódio foi registrado na edição n° 201 do jornal O Conciliador, de 14 de junho daquele ano, na qual é descrito com riqueza de detalhes toda a ação reproduzida na íntegra a seguir.

Primeira página do jornal O Conciliador de 14 de junho de 1823. Imagem © Arquivo Biblioteca Nacional/Memória

 

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Itapecuru Mirim, 10 de junho de 1823.

Os rebeldes do Piauí atacaram hoje esta vila, em grande número; mas foram repelidos. Havendo notícia de que já estavam no lugar do Jacu, légua e meia distante, mandou-se um piquete de cavalaria a reconhecê-los, o qual voltou, havendo sofrido muitos tiros de uma emboscada dos inimigos.

As nossas tropas da vila, formaram-se em ordem de combate, no Largo do Rosário, guarnecendo-se também outros pontos. Fez-se avançar toda a cavalaria sobre os inimigos comandada pelo tenente Burgos, e avançando coisa de quatrocentas braças encontrou o inimigo, que pretendeu flanqueá-la, e por isso se retirou à vila.

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O inimigo avançou, e susteve o fogo de nossa artilharia, e mosquetaria desde às 4 horas da tarde até à noite, e se retirou vendo que sobre ele avançava intrepidamente um destacamento, que tinha à sua frente o bravo capitão Severino Alves de Carvalho.

A nossa artilharia fez grande estrago no inimigo,  e o Tenente-Coronel Ricardo José Coelho a dirigiu com o maior acerto e, atividade. O inimigo deixou o campo uma peça de artilharia, muitas armas, uma caixa de guerra, e muitos mortos, feridos, e alguns prisioneiros cujo número não consta ao certo. Da nossa parte, uma hora depois do combate só constava houvessem seis feridos. Ficou tudo na vila em armas, esperando no dia seguinte os projetos do inimigo.

N B - Logo que cheguem outras notícias oficiais, serão publicadas - O Redator.

Por notícias d'oficío ulteriores conta que o número dos rebeldes, que atacaram a vila do Itapecuru Mirim, foram 1.600 de pé, e 200 de cavalo. Aforma-se que toda nossa tropa de primeira linha se portou com grande firmeza e, bravura; assim como as milícias. Não se pode calcular ao certo a perda do inimigo; mas dizem as participações que apareceram 16 mortos, supondo que muitos outros seriam escondidos por entre os matos, onde se viu muito sangue. Tiveram também uma grande quantidade de feridos. De nossa parte tivemos 16 feridos, muitos deles levemente; assim como 7 mortos pertencentes a um corpo, que avançava com o bravo capitão Severino, e outros oficiais à frente, e que sofreu um vivo fogo dos inimigos.

O inimigo ficaria completamente derrotado se combatesse em campo aberto; porém conservou-se sempre entre o mato, de forma que podendo os rebeldes dirigir o fogo sobre a nossa tropa descoberta, esta atirava sobre o mato; mas assim mesmo tudo confirma que nossa artilharia operou o melhor possível, dirigida pelo hábil Tenente-Coronel Comandante da Força Armada Ricardo José Coelho.

Quando se publicarem o seguinte N. as participações oficiais constarão os nomes dos oficiais de 1ª e 2ª linha, mencionados com louvor

Estas são as únicas notícias que hoje 14 de junho às 5 horas da tarde, à vila de Itapecuru Mirim; e até ao dia 11 não tinha havido outro ataque dos rebeldes; portanto fica evidente que são falsos todos os boatos, que ontem se espalharam nesta cidade! Alerta cidadão Alerta! De notícias aterradoras, e aleivosas usam muitas vezes os anarquistas para conseguir os seus perversos fins! Alerta...

Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, em frente situava-se o Largo do Rosário em 1823. O prédio desabou após forte enchente na primeira metade do século XX. Imagem © IPHAN/Pantoja 1939.

Adesão à Independência do Brasil 

A adesão e juramento de lealdade ao Imperador D. Pedro de Alcântara e ao Brasil como país independente só viria acontecer cerca de um mês mais tarde, no dia 20 de julho daquele ano, quando a junta governativa provisória decidiu render-se às investidas militares imperiais e assinar o documento de adesão; apagando a chama de resistência no derradeiro pedaço de chão português em terras do Brasil que viria a oficializar o ato com a rendição do Maranhão uma semana depois, em 28 de julho de 1823 em São Luís.

*Alberto Júnior é jornalista, professor da rede estadual de ensino do Maranhão, escritor membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA), pesquisador membro da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC).

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