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Sobre as tradições da Semana Santa que o tempo silenciou

Breves lembranças do tempo santo em Itapecuru

Samira Fonseca
Por: Samira Fonseca
29/03/2026 às 10h00
Sobre as tradições da Semana Santa que o tempo silenciou
Imagem gerada por IA

A Semana Santa chegou e, com ela, emergem as lembranças dos mistérios da Paixão de Cristo, mas não apenas a que é descrita nas Sagradas Escrituras, sobre a vida, morte e ressurreição de Jesus, mas sim, as que envolviam as encenações teatrais realizadas na antiga cidade de Itapecuru. Lembranças dos jovens que integravam grupos de teatro e que frequentemente presenciavam, durante os ensaios, fenômenos no mínimo bizarros, episódios marcantes que, por vezes, assumiam contornos sobrenaturais.

Todavia, tais fatos permanecem envoltos em segredo, guardados na “caixa de Pandora de Itapecuru”, a qual não tenho permissão para abrir, quiçá a Júnior Lopes, embora essa possibilidade ainda seja incerta.

A Semana Santa, de fato, era muito diferente dos dias de hoje, e não se trata apenas das lembranças do Caminho Grande, com o cheiro de peixe seco da água salgada e dos camarões, que eram vendidos no comércio do senhor Joaquinzinho, ou da distribuição de bisnagas feita pelo eterno padeiro, Raimundo Sousa, pelas ruas do centro. Há outras memórias a serem evocadas.

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A Sexta-Feira Santa, por exemplo, era, em geral, um dia de recolhimento e tristeza, que levava as pessoas ao silêncio, à reflexão e à compaixão pela dor e morte de Jesus Cristo. As músicas eram exclusivamente religiosas, e quanto mais melancólicas, melhor, como se assim se evitasse qualquer ofensa aos céus. Entre elas, a mais tocada era “Um Certo Galileu”, de Padre Zezinho.

Como não poderia ser diferente, durante a procissão, ouvia-se um murmúrio contínuo ao som de cânticos ainda mais tristes. O olhar dos fiéis permanecia desolado diante da imagem do Senhor morto. Até hoje, meus olhos se marejam ao ouvir o Canto de Verônica.

Ao longo da procissão, a encenação da Via-Crúcis prosseguia, e um dos momentos mais marcantes era a morte de Judas Iscariotes, interpretada por Claudionor Lobo, o único capaz de transformar o trágico fim do traidor de Cristo, em uma cena inesperadamente cômica. Era, sem dúvida, um espetáculo singular.

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Ao término da procissão, as portas da igreja eram fechadas, e todos retornavam às suas casas, cabisbaixos e em silêncio, como se Cristo tivesse acabado de morrer naquele exato instante, restando apenas aguardar o domingo da Ressurreição.

Evoca-se, ainda, a memória da malhação do Judas, realizada na tarde do Sábado de Aleluia. Muitas vezes, o boneco era pendurado em um dos galhos da antiga mangueira, recentemente derrubada para a construção da UPA. (Cabe a nós, escritores, preservar as memórias individuais e coletivas ligadas a essa árvore, inclusive, a meu ver, o nome da unidade deveria ser: UPA DA MANGUEIRA, garantindo que não se perca a lembrança da frondosa mangueira do mercado). Ali, ao entardecer, o boneco era queimado, logo após a leitura do testamento, geralmente elaborado por Tubaê, o organizador do evento.

Hoje, a Semana Santa em Itapecuru está muito modificada. Já não se distribuem bisnagas, nem existe mais o comércio do senhor Joaquinzinho; Na Sexta-Feira da Paixão, a partir das 20h, tão logo as portas da igreja se fecham, em outro ponto da cidade, iniciam-se as festas, abrem-se os portões das casas de eventos, rompendo, indevidamente a Aleluia. Em outras palavras, com nossos antepassados, parece ter desaparecido também, parte do respeito pelas tradições da fé cristã.

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Por fim, neste ano de 2026, o mês de abril chega trazendo consigo os ensaios dos grupos culturais que se apresentarão entre junho, julho e meados de agosto. Resta-nos rogar a Mnemosine que nos permita registrar essas manifestações.

No fim das contas, creio que seja importante que o amigo Júnior Lopes escreva sobre os fatos ocultos guardados na “caixa de Pandora de Itapecuru”, revelando as inúmeras histórias bizarras que ainda sobrevivem na memória daqueles que presenciaram os ensaios da encenação da Paixão de Cristo, em Itapecuru-Mirim, em tempos passados. Mas pode ser outra pessoa também, basta ter coragem para abrir a caixa.

Samira Fonseca é Mestra em Letras pela Universidade Federal do Tocantins – UFT e membro da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes – AVLA.

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