
Ir ao centro comercial de Itapecuru Mirim para fazer compras tem se tornado uma experiência cada vez mais incômoda, pois o que deveria ser uma atividade simples do cotidiano transforma-se, muitas vezes, em um verdadeiro teste de resistência auditiva. Em vez de acolher o consumidor, muitas lojas parecem disputar, em volume máximo, a atenção de quem circula pelas ruas da cidade.
Quem passa pelas avenidas Brasil e Gomes de Sousa, bem como por suas adjacências, percebe com facilidade o excesso de ruídos que toma conta da região. Lojas de roupas e calçados, supermercados, farmácias, açougues e estabelecimentos de eletrodomésticos recorrem, frequentemente, a caixas de som amplificadas, carros de som, paredões automotivos e locuções em tom exagerado para anunciar promoções. O resultado é um ambiente sonoro caótico, em que cada estabelecimento tenta se sobrepor ao outro, produzindo uma verdadeira sobreposição de sons, ritmos e vozes.
Essa prática, além de desagradável, traz consequências reais para a saúde. De acordo com estudos realizados pela Associação Brasileira para a Qualidade Acústica, apontam que a exposição prolongada ao ruído pode provocar irritabilidade, estresse, distúrbios do sono, dificuldade de concentração, cefaleia, tontura, zumbido e até problemas digestivos. Em uma cidade onde muitos trabalhadores do comércio passam cerca de oito horas por dia submetidos a esse cenário, o problema deixa de ser apenas um transtorno e passa a ser também uma questão de saúde pública e de dignidade no ambiente de trabalho.
Ainda assim, o que se observa é a persistência dessa cultura do excesso, mesmo diante de campanhas educativas da Secretaria do Meio Ambiente e de recomendações do Ministério Público, muitos estabelecimentos continuam apostando no barulho como estratégia de atração. Em algumas ocasiões, contratam-se artistas para cantar à frente das lojas; em outras, realizam-se carreatas com carros de som e fogos de artifício com estampido para marcar inaugurações e aniversários da loja.
A pergunta que se impõe é simples: em que momento se estabeleceu a ideia de que barulho é sinônimo de divulgação eficiente?
Em tempos de redes sociais, rádio, marketing digital e outras formas de comunicação mais modernas e menos agressivas, insistir no ruído como principal ferramenta de propaganda parece ultrapassado. Um ambiente comercial excessivamente barulhento não estimula o consumo consciente, não favorece o diálogo entre vendedor e cliente e tampouco contribui para uma experiência positiva de compra. Ao contrário, o barulho afasta, incomoda e desgasta.
Não é difícil perceber isso na prática. Em muitas lojas do centro, o consumidor mal consegue conversar com o vendedor, as interações tornam-se rápidas, superficiais e limitadas. Muitas vezes, compra-se sem esclarecer dúvidas sobre o produto, apenas para encerrar logo a permanência naquele ambiente. Outras vezes, o cliente simplesmente desiste e vai embora. Há, nesse contexto, uma inversão, pois em vez de convidar o público a entrar, o excesso de som parece expulsá-lo.
A situação é ainda mais grave para quem trabalha diariamente nesses espaços ou em seu entorno, como vendedores, operadores de caixa, mototaxistas e outros profissionais que convivem diretamente com a poluição sonora; são eles os mais afetados por uma prática que, em nome da propaganda, ignora o bem-estar humano. O problema se agrava nos fins de semana, quando o sossego esperado por muitos moradores é substituído por mais ruído nas manhãs de sábado e domingo.
É preciso dizer com clareza que barulho não é sinônimo de progresso, movimento ou sucesso comercial. Uma cidade que valoriza a qualidade de vida de sua população não pode naturalizar a agressão sonora em seus espaços públicos e comerciais. Não se está negando o direito que o comércio tem de divulgar seus produtos e promoções, mas esse direito não pode se sobrepor ao direito coletivo ao bem-estar, à saúde e ao mínimo de tranquilidade.
O momento exige mudança de mentalidade. Os proprietários de lojas precisam compreender que é possível vender bem sem transformar o centro da cidade em uma arena de ruídos. Crer-se que ter empatia com o consumidor e com os próprios funcionários é, também, uma forma de respeito e responsabilidade social, afinal, comprar sem excesso de barulho é perfeitamente possível e vender sem poluição sonora, mais do que viável, é necessário.
Samira Fonseca é formada em Língua Portuguesa, mestra em Letras pela Universidade Federal do Tocantins – UFT e membro da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes – AVLA.