
Refletindo, nestes últimos dias, sobre os caminhos da tecnologia, percebo como ela, silenciosamente, vai apagando certas memórias que antes pareciam permanentes. Na pressa cotidiana, quase nunca nos damos conta desse processo e, ao compasso dos ponteiros, acabamos por naturalizar o esquecimento.
Foi sob essa impressão que, ao voltar da escola, enfrentando uma chuva insistente, olhei para o relógio digital no retorno do centro da cidade; nele, surgiam imagens institucionais e a previsão do tempo para aquela noite de quarta-feira. Foi então, nesse instante, que a lembrança do antigo relógio de quatro faces emergiu em minha mente.
A juventude de hoje talvez não guarde essa imagem, mas as minhas cãs se encarregam de não deixar que ela se perca. Houve um tempo em que nós, itapecuruenses, tínhamos, na rotatória central, um relógio de quatro faces, um marco que, à sua maneira, dialogava com outros espalhados pelo mundo, a exemplo de Londres, no alto da torre do Big Ben; o da Torre Abraj Al Bait, na Arábia Saudita; os do Rio de Janeiro, na Central do Brasil e no Largo da Carioca; e, mais próximo de nós, o de São Luís, na Praça João Lisboa. Em todos esses lugares, os monumentos resistem a ação da tecnologia. Em Itapecuru-Mirim, não. Ele sucumbiu.
É doloroso constatar como o patrimônio da cidade se desfaz, pouco a pouco, diante de olhos que, em sua maioria, preferem o silêncio. Foi o que se deu com o nosso relógio, ele simplemente desapareceu, como se nunca tivesse existido.
Quem já ultrapassou as três décadas de vida neste chão, o torrão natal de Mariana Luz, certamente há de recordar o relógio quadrado que se erguia entre a Avenida Brasil e a Avenida Gomes de Sousa. Era mais que um ponto geográfico, era um ponto de encontro. “ Eu vou te esperar lá no relógio” era expressão comum e que ainda ecoam na memória coletiva do povo, porque ele marcava mais que o tempo; o relógio era um marco arquitetônico e que se dissolveu diante de nossos olhos.
O artista plástico Beto Diniz, vez ou outra, reacende essa lembrança em suas telas, resgatando as formas e a presença do antigo relógio. Mas talvez a memória mais viva não esteja nas imagens, e sim nos afetos. Quando nas noites de domingo, após a missa, parávamos para saborear o mingau de milho com coco, preparado por dona Maria Aragão, ali na esquina do antigo hotel de seu Bebé, hoje Hotel Brasil, bem em frente ao relógio.
E então, amigo leitor, lembrou? Lembra-se dos altos canteiros, da árvore Carolina espalhando suas sementes vermelhas? Ou das amendoeiras-da-praia que deixava cair seus frutos e suas largas folhas? Caso tenha lembrado, permita-se evocá-la por completo, pois talvez, assim, você perceba que já fomos mais felizes na simplicidade, contemplando um relógio analógico, do que na pressa luminosa de um visor digital.
Samira Fonseca é Mestra em Letras pela Universidade Federal do Tocantins – UFT e membro da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes – AVLA.