
DANTE E BEATRIZ
Theotonio Fonseca
Irmãos, ao mesmo tempo, Amor e Morte
Engendrou-os a sorte.
Beleza assim, no fundo,
Nas estrelas não há, não há no mundo.
(Giacomo Leopardi, Cantos, “Amor e Morte”)
Quando se tornou de conhecimento público o vínculo afetivo que se estabelecera entre Dante Silva, já dobrado pelo peso de oito décadas, e Beatriz da Luz, ainda situada na delicada fronteira dos dezenove anos, a cidade — como costumam reagir as urbes antigas, zelosas de seus costumes e vícios — dividiu-se entre a indulgência sorridente e o escândalo vociferante. Houve quem enxergasse ali apenas mais uma excentricidade do tempo; outros, porém, apressaram-se em nomear o episódio como golpe do baú, atribuindo-lhe contornos de fraude afetiva revestida da aparência de legítimo arranjo familiar.
Nos corredores do Fórum da Comarca, onde o rumor das causas humanas costuma vestir-se de linguagem técnica, operadores do Direito passaram a discorrer sobre o episódio com o conforto de uma erudição prática, evocando, não sem certo deleite intelectual, a figura difusa de um estelionato sentimental — conceito que lhes permitia, sob o véu da legalidade, julgar moralmente aquilo que a lei não alcança.
Entre os religiosos, instaurou-se a cisão costumeira: uns repetiram a expressão paulina do jugo desigual; outros, mais afeitos às narrativas veterotestamentárias, evocaram Abraão e Sara, que, segundo o relato do Gênesis, também se separavam por considerável distância etária — não tão acentuada quanto a de Dante e Beatriz, é verdade, mas suficiente para servir de amparo retórico.
Em outro registro, já no espaço asséptico da sala de aula de uma faculdade local, o episódio foi mencionado por um professor que, sem desejar adentrar os meandros da vida privada dos munícipes da velha urbe — ele próprio casado com uma mulher duas décadas mais jovem —, lembrou que Jane Eyre era ainda muito moça quando se apaixonou por Edward Rochester, na trama romanesca de Charlotte Brontë.
Dante Silva gozava de saúde surpreendentemente firme e bojudas algibeiras; havia alguns anos, tornara-se adepto das beberagens preparadas por um garrafeiro do Quilombo Santa Rosa dos Pretos, reputadas, na imaginação popular, como restauradoras de ânimo e vigor. Verdadeira ou não, a fama das garrafadas passou a integrar o folclore doméstico da cidade.
O provecto noivo desconfiava dos fármacos industrialmente processados: três amigos seus haviam sucumbido ao uso insistente dessas pílulas de laboratório, ao tentarem acompanhar a jovialidade de companheiras muito mais jovens. A chamada azulzinha jamais lhe enchera os olhos; preferia valer-se das garrafadas — sem bula, sem contraindicações escritas, mas com longa memória no corpo e no tempo. Assim, chegara à residência de seu amigo no afã de adquirir o elixir que presidiria a consumação do matrimônio que se avizinhava.
No improvisado laboratório de saberes herdados, onde frascos de vidro repousavam ao lado de raízes ainda terrosas, o garrafeiro estruturara a poção como quem compõe um corpo: dera-lhe ossatura com cascas e entrecascas de catuaba verdadeira e marapuama, reforçadas pelo cerne resinoso do jatobá e pelo amargor tônico da quina-quina; acrescentara paus de virtude — pau-de-alho, pau-de-barrigudo e sucupira —, macerados lentamente, para que soltassem não apenas o princípio, mas o tempo da madeira.
À massa quente juntavam-se folhas de pariparoba, jambu recém-colhido, cipó-cravo e cipó-mil-homens, plantas de circulação e nervo, capazes de acordar o corpo sem violentá-lo. Para fechar o ciclo, entravam sementes e frutos de guaraná silvestre, lascas de gengibre, canela-do-mato e noz-moscada ralada na hora, tudo amalgamado em mel grosso de abelha nativa e assentado na aguardente clara, que não servia apenas de veículo, mas de chama — fio líquido encarregado de conduzir, pelo sangue, o chamado tardio do desejo.
Aprioristicamente considerada, aquela geleia geral poderia transmutar-se tanto em veneno fatídico quanto em laxante grotesco, mais eficaz em provocar desarranjos intestinais do que em restituir a vitalidade prometida. O que a distinguia, porém, era o manejo: temperada com rezas específicas, o elixir dormia enterrado por alguns dias no ventre da terra, sob noites de lua cheia; depois, era colocada no tempo para energização, preparado sob encomenda para determinados encantados que, segundo a tradição, velavam por essas esferas da vida. Tratava-se, assim, de uma confluência cuidadosamente cultivada entre as propriedades fitoterápicas das plantas e as energizações oriundas do manejo espiritual.
As bodas de Dante e Beatriz ocorreram numa noite enluarada de setembro, na Igreja Matriz de Nossa Senhora das Dores. Tratava-se do terceiro casamento de um homem que enviuvara por duas vezes sem jamais ter gerado rebentos. A primeira consorte fora colhida por um raio numa tarde de chuva violenta, em meados da década de 1960, quando ambos se banhavam no Igarapé do Ipiranga: enquanto o marido adentrava as águas, o clarão celeste atingira Margarida à margem do afluente do rio Itapecuru, selando-lhe o destino num instante fulminante.
A segunda viuvez sobreveio no início da década de 1970. Rosário, com quem Dante se casara havia poucos meses, subira a uma goiabeira para preparar uma goiabada doméstica; o galho, porém, rompeu-se, e a queda foi suficiente para lhe quebrar o pescoço. Assim se formou o acervo de tragédias matrimoniais precocemente interditadas pela visitação da morte — repertório sombrio que fez com que o viúvo passasse a ser apontado nas ruas como portador de uma maldição solerte. O próprio Dante prometera a si mesmo que, doravante, permaneceria só, sem novo enlace; promessa que cumpriu com rigor por cinco décadas.
Foi apenas em meados de 2025 que Dante conheceu Beatriz, após um namoro tão rápido quanto intenso, seguido de um noivado que mal ultrapassara o limite de três meses. Na celebração do matrimônio, o sacerdote — homem dado às letras e não estranho à tessitura simbólica da Divina Comédia — escolheu afastar-se das exortações costumeiras sobre prudência e permanência, preferindo deter-se no amor que, em outros tempos, unira o poeta florentino, a quem Giacomo Leopardi chamara de “ínclito pai do nobre verso etrusco”, à sua musa.
Havia, naquela escolha, algo mais que erudição ornamental: ao evocar Dante e Beatriz, o pároco parecia insinuar que certos vínculos se instauram não pela duração, mas pela intensidade com que desafiam a ordem comum do tempo.
Eu sou Beatriz, que peço que tu vás,
venho de onde retornar almejo;
ajuda-o, para que eu seja confortada.
Quando, do meu Senhor ao bom bafejo,
voltar, irei de ti falar-lhe bem.
Calou-se então, e eu tomei meu ensejo:
“Ó mulher de virtude, só por quem
tem tudo a humana espécie superado,
que em sua primeira esfera do céu contém,
tanto a obediência acolho de bom grado
que seria tarda inda que já cumprida:
basta-me o teu querer manifestado.”
(Dante Alighieri, Divina Comédia, Inferno, Canto II)
O acaso litúrgico pareceu, a muitos, um sinal — não apenas pela coincidência nominal, mas pela carga de sentido que aqueles versos faziam pesar sobre a união recém-consagrada. Na narrativa dantesca, Beatriz move o céu por amor e convoca outro para guiar o poeta extraviado; ali, contudo, a assimetria se invertia de modo inquietante: era Dante quem, consciente de sua idade e de seus limites, se lançava ao risco de acompanhar a juventude luminosa da esposa, como se também ele respondesse a um chamado que o excedia.
Ainda assim, tudo transcorreu belo e solene: a recepção foi concorrida, a cidade compareceu em peso e, após o almoço festivo, os nubentes seguiram para São Luís, levando consigo — sem o saber — não apenas a promessa da lua de mel, mas a sombra discreta de um amor que, como na poesia antiga, nascera sob o signo da exceção.
Cumpre registrar-se um detalhe burlesco: as bodas ocorreram um dia antes do advento do carnaval; a estética ornamental da urbe já denunciava o brevíssimo reinado momesco, e as estações de rádio reproduziam, em suas programações, o repertório clássico de marchinhas quando, no interior do automóvel que conduzia os cônjuges a São Luís, passou a ecoar a célebre cantiga popularizada na voz de Silvio Santos: “A pipa do vovô não sobe mais, apesar de fazer muita força; o vovô foi passado pra trás.”
Intimamente, Dante deu de ombros: sabia que a canção de ambíguo sentido se amoldava à sua condição peculiar, ele que levara consigo, bem oculto na valise, o litro com o elixir do amigo garrafeiro. Conhecia as recomendações: parcimônia, medida exata, respeito ao tempo da poção. Ainda assim, dominado por um desejo tardio de plenitude, resolveu exceder-se. Queria surpreender; queria oferecer àquele instante tudo o que lhe restava de vigor e desafio. O que se seguiu, porém, não foi celebração, mas desmedida.
Horas depois, quando a madrugada já se desfazia em silêncio, Dante percebeu que Beatriz não despertava. O que tomara por simples exaustão revelou-se tragédia. A jovem, portadora de uma cardiopatia até então ignorada, sucumbira. Assim, o ancião tornava-se viúvo pela terceira vez — três vezes, enfim, para crer que não lhe fora destinado o casamento como às pessoas comuns.
Diante do corpo imóvel, assomou-lhe à memória um verso do poeta grego Menandro, que seu saudoso professor de Língua Portuguesa do Liceu Maranhense costumava repetir ao discorrer sobre os poetas ultrarromânticos brasileiros ceifados precocemente do jardim dos aedos: “Morre tão jovem aquele que é caro ao céu.” Foi então que Dante, em silêncio, recordou a promessa outrora feita aos deuses — jamais tornar a desposar mulher alguma —, promessa da qual Beatriz o demovera, sem disso ter consciência, ao quebrar o pacto tacitamente entabulado com o destino. Naquele instante, compreendeu, por fim, que certas promessas não se quebram impunemente: nem as feitas aos mortos, nem as feitas ao próprio tempo.
Theotonio Fonseca de Sousa é Professor, Escritor e Advogado.