
REFLEXÃO SOBRE UM COLÓQUIO DE DEMÓCRITO NO ODEON
Theotonio Fonseca
“Enquanto seguíamos pela estrada do norte, um abutre veio pousar no ombro de um soldado mumificado. Com quase humana curiosidade — delicadeza mesma —, a ave examinou o buraco onde existira um olho e deu uma bicada exploratória. Não encontrando mais nada, o pássaro voou embora: tinha chegado tarde demais para o banquete.” Gore Vidal, Criação.
Eu era um jovem da aristocracia ateniense que buscava, junto aos sofistas, aperfeiçoar meus dotes de oratória e retórica, para quiçá assumir alguma embaixada grega em algum rincão do mundo, quando soube que o ancião Demócrito — grande homem das ciências do mundo helênico — ministraria uma palestra no Odeon acerca das memórias de seu tio, o célebre embaixador persa e neto do profeta Zoroastro, Ciro Epístama, cujas recordações jaziam imortalizadas no pergaminho ao qual o genitor da teoria atômica chamara Criação.
Naquela ocasião, o sábio falaria acerca de um personagem controverso do Leste: Ajatashatru, soberano de um dos reinos da Índia, que acalentara o sonho de tornar-se o senhor supremo do mundo. Sentei-me na plateia e, durante quase quatro horas, deliciei-me com as descrições de um mundo tão diverso: divindades, costumes, línguas e um povo tão distante geograficamente da Ática, com caudalosos rios tão imponentes quanto o Mar Egeu.
Não poderia aqui descrever detalhadamente tudo o que fora dito. Hoje, aos oitenta anos, já não gozo das bênçãos de Mnemosyne, a musa da memória; parece-me, antes, que sou agraciado pelo olhar de Lete, a divindade do esquecimento. Contudo, ainda recordo uma passagem impressionante: a narrativa de um empalamento que, profundamente marcado, decorei e repeti muitas vezes a meus filhos, netos e bisnetos.
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A batalha sangrenta perdurara semanas, e os colonizadores haviam adentrado o reino vizinho com o afã indeclinável de anexar o próspero território ao grande império do monarca de Mágada, Ajatashatru. A derradeira falange a resistir jazia às margens de um imenso rio e, ali, entre as águas em convulsão e os inimigos contra os quais deveriam lutar até o fim, certificaram-se de que pereceriam — mas o fariam com honra.
O general, aos gritos, pedira que imolassem suas vidas naquele arraial. Contudo, um dos soldados, de carisma envolvente e grande liderança entre os seus, redarguira às orientações de seu superior e suplicara que seus patrícios se rendessem.
Talvez, assim, alcançassem a misericórdia do Grande Rei. Melhor seria viver como escravos ou prisioneiros de guerra do que ter suas existências ceifadas ao gume das espadas, em um confronto desigual cuja derrota já era pressentida por todos.
A falange atendeu ao apelo e, atirando suas armas ao chão, ajoelhou-se aos pés do exército inimigo — menos o comandante que, resistindo, lançou-se solitariamente nos braços da Indesejada das gentes, sendo transpassado pelas espadas de dez guerreiros que irromperam contra si.
Quanto aos rendidos, ansiavam pelo cativeiro; mas, conhecendo a sanguinolência que presidia a conduta de Ajatashatru em tempos de guerra, possuíam plena consciência de que uma morte dolorosa era o destino mais provável que os aguardava.
Apegando-se a seus deuses, ajoelhados e cabisbaixos, sentiram um leve tremor na terra quando um elefante ornado com imensos colares de ouro e pedras preciosas aproximou-se deles, trazendo em seu dorso o obeso e cruel monarca parricida que, anos antes, trancafiara o próprio genitor em um calabouço, deixando-o definhar de fome até o derradeiro suspiro. O exército de Mágada, que expandia os domínios de seu rei por toda a planície Gangética — anexando territórios, reduzindo a pó cidades e rebeldes que não aceitavam o cetro de seu soberano —, jazia com as frontes marcadas pelo sol, a contemplar o condutor do elefante que, em breve, daria ordens.
Foi então que Ajatashatru fez dois gestos obscenos: o primeiro indicava empalamento; o segundo, emasculamento. O destino dos infelizes estava traçado na solerte roda dos desafortunados. Dizem que, ao longe, ouviam-se os lancinantes gritos de estertor dos soldados de Koshala que, às margens do rio Sadanira, eram dilacerados com estacas introduzidas em seus ânus até que as pontas irrompessem das bocas e, antes que sucumbissem ao derradeiro suspiro, tinham seus órgãos genitais extirpados pelos ancinhos dos vencedores. A morte, ali, não era célere: era método e cruento espétaculo.
Ciro Epístama, meu saudoso tio, disse-me que as mulheres de Mágada após um processo de taxidermia utilizaram os sacos escrotais dos mortos para guardar moedas. Os empalamentos duraram quase quarenta e oito horas e, ao fim, duas fileiras de espantalhos humanos, suspensos por estacas, iniciavam seu processo de putrefação quando meu tio por ali passara, tempos depois, e se avistara com aquele painel de horror contrastando com a aquarela da natureza indiana.
Vira um corvo esquálido que, ao buscar em uma daquelas múmias um naco de carne que lhe aplacasse a fome, bicara o orifício escuro onde outrora residiram olhos e, não encontrando quaisquer resquícios que lhe pudessem alimentar, alçara voo para outras plagas — não sem antes crocitar, talvez vocábulos de deboche aos homens, tão criativos em seus artifícios de tortura e morte dos semelhantes.
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Hoje, quando recordo aquela palestra de Demócrito, que compartilhava as memórias de Ciro Epístama, o embaixador dos grandes reis persas que servira Dario, Xerxes e Artaxerxes, algo me faz refletir: por que um homem tão poderoso, que tinha a seus pés uma horda de derrotados, aprouvera em comprazer-se em requintes tão macabros de crueldade?
Quisera amedrontar outros povos com o anúncio de suas maldades, por meio dos arautos que proclamavam aos confins do mundo as façanhas bélicas do rei Ajatashatru, o impiedoso? Ou haveria, no íntimo desse soberano, uma necessidade de inscrever o medo como linguagem política definitiva?
Ao recordar o corvo que só encontrara as cavidades onde outrora olhos humanos contemplaram o múltiplo colorido do mundo natural e o mistério suspenso no espaço dos planetas e estrelas, pergunto-me o que pensara aquela ave, em sua forma desconhecida de conhecer a realidade. Por certo intuía que aquelas miríades de marionetes suspensas não eram produto do movimento ordinário da natureza, mas do agir de seres daquela mesma espécie.
Os corvos alimentam-se dos restos pútridos, da carne putrefata, mas não seviciam seus semelhantes ou animais de distinta espécie com artefatos e atitudes destinadas a imprimir dor. Ajatashatru fez-se temido por ser sanguinário, fez-se poderoso por comandar hostes vencedoras; ao cabo, quedou-se ao colo da morte como mais um mortal que se despede da vida para adentrar os anais da história.
O anônimo corvo, porém — cuja identidade permanece silenciada por nossa recusa em nomear todos os seres como dispensamos aos nossos iguais —, imortalizou-se por inspecionar os despojos corporais despossuídos de qualquer viço, enquanto os homens detinham em seu agir penínsulas de maldade aprisionada, a aguardar quem se propusesse a escalar-lhes os píncaros.
O corvo viajante possuía a liberdade dos ares, sem o jugo da culpa de ceifar a existência de seus semelhantes. Talvez o crocitar, naquela manhã cálida, encerrasse algo como um juízo final não pronunciado: “Homens, pobres carniceiros que se rastejam na terra: almejam a plenitude do voo, porfiam decifrar os segredos dos astros, mas se engasgam com os nacos putrefatos de seus próprios espíritos em andrajos.”
Theotonio Fonseca de Sousa é Professor, Poeta, Escritor e Advogado.