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A TÚNICA DE CIPRIANO

Quando um Aluno Desmancha a Costura do Imaginário Colonizado.

Theotônio Fonseca
Por: Theotônio Fonseca
20/01/2026 às 11h49
A TÚNICA DE CIPRIANO
Imagem produzida com IA

A TÚNICA DE CIPRIANO

Theotonio Fonseca

            Entusiasmada com um projeto de letramento racial desenvolvido pela Rede Estadual de Ensino do Maranhão, uma historiadora, entusiasta da educação escolar quilombola, resolveu trabalhar algumas narrativas ficcionais com seus alunos. Compulsando o acervo da Biblioteca Pública Benedito Buzar, não encontrou nenhuma obra que se amoldasse plenamente aos objetivos pedagógicos propostos.

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            Ao ampliar a pesquisa para a internet, deparou-se com o blog de um pesquisador que ambientava suas narrativas na terra de Mariana Luz. Entre os textos ali publicados, um conto lhe chamou a atenção de modo particular. Intitulava-se A Túnica de Cipriano.

            A educadora julgou ter encontrado, enfim, um material sensível à memória e à ancestralidade que desejava mobilizar em sala de aula. Tratou-se, contudo, de uma escolha infeliz, posto que a narrativa selecionada reproduzia representações eivadas de preconceitos historicamente enraizados na sociedade brasileira. Foi esse texto que chegou às mãos dos alunos do Quilombo Santa Joana.

A TÚNICA DE CIPRIANO

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            Dizia-se que Cipriano da Conceição só sucumbiria ao ósculo gélido da indesejada das gentes quando sua consorte, Dona Madalena, concluísse a confecção de sua túnica mortuária. Isso ocorrera na Itapecuru Mirim da década de 1930. À época, o provecto ancião contava noventa anos. Dez anos depois, quando este completara sua primeira centúria, Dona Madalena fenecera, aos setenta, sem jamais concluir as especificações da mortalha.

            Jazemos em 2026, e o imorrível ainda aguarda a conclusão da túnica. Quem hoje a tece é Dona Joana, costureira exímia, sua quarta esposa, que, aos sessenta anos, deblatera contra as roldanas céleres do relógio para concluir o infausto labor. Apega-se à centelha de esperança de concluí-la em breve; do contrário, as tecelãs do tempo não haverão de fraquejar em encerrar-lhe o sopro vital com uma impiedosa tesourada.

            O que não se sabia acerca daquele homem de quem a morte se esquecera é que seu nascimento não ocorrera por meios naturais; seu criador foi o africano Euzébio, aquilombado nas matas de Codó, um escultor de assombradiços do Maranhão oitocentista.

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            A propósito de Tata Euzébio, quando sua genitora, sem aceitar o destino solerte do cativeiro, lançara-se ao mar durante a travessia do Atlântico, o então jovem Sangoma entabulara dois pactos com o oceano: regressar livre à terra natal e empregar seus saberes no combate aos escravagistas, em cujas mãos, cravejadas de ouríficos anéis, também jazia o sangue de sua desafortunada mãe.

            Ao chegar ao infecto pelourinho em que fora comprado e encaminhado para uma fazenda em Codó, retinha vívidos na memória os lamentos dos irmãos no degradante tumbeiro. Esse pranto o acompanharia até o fim quando, já liberto, em 1899, dominara a fórmula oculta que lhe permitira fechar os olhos no quilombo em que vivera por décadas e abri-los na aldeia onde seus ancestrais viveram, em Angola, e onde morreria, em 1890, entre os seus, honrado com o título de Tata Supremo.

       Décadas antes de sua morte, quando Tata Euzébio conseguira fugir do cativeiro e refugiar-se na mata codoense, aquilombado com um grupo de irmãos, lançara os ossos do ngombo em seu kasana; ouvira de Nkukua Lunga que deveria esculpir formas espectrais capazes de constranger os senhores à alforria da prole dos mortos da senzala, fazendo da aparição ritual um aviso reiterado e inexorável contra a persistência do cativeiro.

            Assim se fez. Sempre que um escravizado falecia nas senzalas — consumido pelo trabalho extenuante, pela violência ou pela fome — e seu corpo era exposto ao velório precário imposto pelos senhores de engenho, o assombradiço se manifestava. Diante do cadáver em andrajos, à vista dos proprietários da fazenda, sua presença instaurava o terror ritual: não se tratava de lamento nem de vingança gratuita, mas de um aviso reiterado e inexorável.

            Ecoava, então, a sentença: enquanto não fosse concedida a alforria aos filhos daqueles mortos da senzala, a própria descendência dos senhores estaria marcada para o perecimento. Cada morte não redimida gerava nova aparição; cada recusa em libertar a prole reforçava a maldição.

          Com a Abolição da Escravatura, Tata Euzébio convocou todos os assombradiços que moldara com o barro a regressarem ao fundo do igarapé, de onde haviam sido retirados. Suas missões originárias haviam perdido o objeto: já não havia escravagistas a constranger nem prole a libertar sob ameaça. Um a um, os assombradiços atenderam ao chamado e se desfizeram no lodo primordial.

            Contudo, um assombradiço recusara-se a atender à convocação. Aquele que tornar-se-ia Cipriano da Conceição não retornou ao barro. Não quis dissolver-se no fundo do igarapé nem aceitar o apagamento destinado aos demais. Desejou ser homem. Para tanto, pôs-se à procura de quem lhe insuflasse vida, até encontrar uma criatura caprina de cartola que circundava, nervosamente, uma choupana de barro, onde uma velha fiandeira tecia, eternamente, uma túnica; se esta morresse antes de concluí-la, o bode estaria condenado a pervagar pela eternidade sob aquela forma.

            O assombradiço propôs-lhe um pacto: adentraria a choupana, auxiliaria a fiandeira na conclusão da urdidura e, ao final, vestiria seu interlocutor, que, ao reassumir a condição humana, insuflaria nele o pneuma vital. Queria, contudo, conservar a imortalidade da natureza assombradiça, ainda que revestido da condição humana; ou seja, além de tornar-se homem, postulava a um existir imorredouro.

            O bode redarguiu com uma contraproposta: transmudar a forma espectral em homem não lhe era impossível; contudo, se o postulante à humanidade declinasse do desejo de viver, sua morte estaria condicionada à confecção de sua própria túnica mortuária por uma de suas esposas. Ainda assim, as engrenagens do destino conspirariam para que tais consortes fenecessem antes de concluir a indigesta missão de selar-lhe o fim.

            O proponente sorriu ironicamente. Não teria vontade alguma de morrer; nada deveria equiparar-se à eternidade e, por certo, optaria por transcender os ciclos do tempo e permanecer fora da jurisdição da morte.

            A isso respondeu o antigo feiticeiro — então habitante da forma caprina — que, ao assumir a condição humana, o assombradiço herdaria o jugo de seus pecados, carregando na alma as consequências de uma vida inteira de feitiçaria em desfavor dos semelhantes.

         Doravante, o bode-feiticeiro, redimido pela transferência da culpa, caminharia entre os homens; enquanto o assombradiço, qual animal expiatório dos tempos bíblicos, pervagaria no deserto do existir, perseguindo a visitação da morte sem jamais alcançá-la. Não adiantaria atentar contra a própria existência: a morte o esqueceria e sua consciência afundaria, dia após dia, pela eternidade, num pútrido lamaçal de culpa.

            Selaram o acordo com sangue. Assim, o antigo feiticeiro, liberto da forma caprina, tornou-se homem e, optando por mudar de vida, buscou a orientação de um confessor que, após absolvê-lo, catequizou-o. Recebeu o batismo alguns meses depois, tornando-se sacristão engajado.

            Quanto a Cipriano da Conceição, com o passar dos meses, sentira sob o dorso da alma o jugo dos alheios erros. Assombrado por memórias, visões e pesadelos que não conseguia exorcizar, em menos de três anos, iniciara seu périplo em busca de uma cônjuge-costureira que pusesse termo ao tormento de existir; contudo, contra si convergia o tilintar iminente da lâmina das tesouras das tecelãs do destino. A busca o fizera percorrer vários lugares até aportar em Itapecuru Mirim, onde fixara residência na década de 1930.

             Cipriano da Conceição ainda aguarda a libertação dos grilhões da vida. Dona Joana não compulsara as Metamorfoses de Ovídio; contudo, à sua maneira, personifica a mortal Aracne a deblaterar-se com Atena nos mistérios da tecelagem. De um lado, a própria vida, passível de ser fulminada pelas Parcas; de outro, a dele, que clama pela morte.

            Após a leitura, a professora do Centro de Educação Quilombola Olegário Bispo perguntou o que os alunos haviam achado da narrativa.

            O adolescente Gabriel dos Anjos — leitor assíduo, integrante do grupo de capoeira Mandingueiros do Amanhã, sob a orientação do Mestre Sandro Angola, e iniciado no Tambor de Mina por seu tio, Pai João Batista — tomou, então, a palavra.

            Disse que o conto lhe parecera interessante, mas profundamente incômodo. Questionou por que o mestre de saberes tradicionais surgia animalizado, como se a espiritualidade de seus ancestrais precisasse ser rebaixada à condição bestial para existir no imaginário do narrador. Indagou, ainda, por que esse mesmo mestre era apresentado como alguém que praticara maldades quando, historicamente, os saberes afro-brasileiros sempre estiveram associados à cura, à proteção e à manutenção da vida comunitária.

            Prosseguiu afirmando que lhe parecia especialmente problemático o fato de que, após uma vida inteira dedicada à espiritualidade ancestral, a redenção do personagem só se tornasse possível pela via do catolicismo. Lembrou que este, no contexto colonial, não se restringiu a uma dimensão estritamente religiosa, tendo-se articulado, em muitos momentos, às engrenagens do sistema escravista, contribuindo para a legitimação do cativeiro e da desumanização do povo negro.

            Reconheceu, contudo, que a própria tradição cristã poderia ter envidado — e por vezes efetivamente envidou — esforços no sentido de questionar o tráfico atlântico de africanos escravizados e afirmar a dignidade humana, ainda que tais iniciativas não tenham sido suficientes para romper, de imediato, com a lógica colonial dominante.

            Observou, por fim, que, ao reproduzir essa lógica — ainda que no plano da ficção —, o conto acabava por reafirmar uma hierarquia religiosa, na qual as religiões de matriz africana surgem como expressões primitivas, eivadas de erro, enquanto o cristianismo aparece como via exclusiva de salvação moral. Concluiu, com serenidade firme, que via ali não apenas estereótipos, mas aspectos sutis do racismo a pervagar um imaginário coletivo encarcerado nos pavilhões do colonialismo cognitivo.

            A professora silenciou, impactada pelos argumentos do brilhante aluno, recordara uma frase lapidar de Franz Fanon, que definia o que Gabriel acabara de expor: “Os oprimidos sempre acreditarão no pior sobre si mesmos”. O adolescente, contudo, suscitava uma compreensão crítica do texto e, ao fazê-lo, parecia evocar um célebre pensamento de Paulo Freire, expresso na Pedagogia do Oprimido: “Ninguém liberta ninguém, ninguém se liberta sozinho: os homens se libertam em comunhão.”

            E foi assim, na comunhão da partilha de saberes, que, descolonizando o conto manejado no chão da escola, o aluno contribuíra para o processo de libertação epistêmica da professora.

Theotonio Fonseca de Sousa é Professor, Poeta, Escritor e Advogado.

 

 

 

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