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O MONARCA DO CÁRCERE DE BABEL

Dos segredos revelados no compasso do destino

Theotônio Fonseca
Por: Theotônio Fonseca
24/02/2026 às 21h13
O MONARCA DO CÁRCERE DE BABEL
Imagem produzida com IA

O MONARCA DO CÁRCERE DE BABEL

Theotonio Fonseca

Embora a Babilônia tenha sido frequentemente arrasada por guerras, os habitantes, conhecidos como “o povo de cabelos negros”, sempre constroem a cidade exatamente como era antes, como pelo menos eles nos dizem. A cidade fica no centro de enorme praça, que é quase dividida ao meio pelo rápido e escuro rio Eufrates. (Criação, Gore Vidal)

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            Quando sua genitora o pariu sobre a lápide fria, apenas as casuarinas — sentinelas imóveis da necrópole — testemunharam os primeiros gemidos que denunciavam, contra toda expectativa, que o sopro da vida ainda lhe habitava os pulmões. Envolto em andrajos, depositado num cesto de palha e deixado à soleira da tradicional família política da província, o recém-nascido não carregava, ao menos no plano da aparência social, a identidade mítica de um povo historicamente oprimido, como Moisés à deriva no Nilo; sua herança parecia outra, mais empobrecida: uma linhagem inteiramente consumida pela criminalidade e pela morte violenta.

            Uns haviam tombado à faca, outros à bala; alguns — como sua própria mãe, semanas após o parto — sucumbiriam à overdose. O último remanescente daquela indigitosa cepa, seu tio, seria decapitado na grande rebelião do Complexo Penitenciário de Pedrinhas, no ano de 2010.

            Tratava-se de uma genealogia cerzida em tragédia, da qual ele era o derradeiro representante. Contudo, na conservadora urbe, ninguém conhecia-lhe a gênese. A então primeira-dama encontrava-se no oitavo mês gestacional quando o encontrou à porta, envolto em trapos, na diminuta cesta; naquela mesma noite, acometida por intensas dores de parto, fora levada às pressas a São Luís, onde sofrera um aborto espontâneo. Suprimiu-se, assim, o natimorto da narrativa oficial, e afirmou-se que o bebê abandonado à porta da residência era o filho esperado. A ardilosa providência não nascera do acaso.

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            Datava de quase dois séculos na cidade uma lenda envolvendo a família da primeira-dama: dizia-se que, a cada geração, apenas uma mulher daquela estirpe era agraciada com os dotes da maternidade. A maldição remontaria a um antepassado — Nabonido Jubal, mercador oriundo do Império Otomano, região que hoje corresponde ao Iraque, território das ruínas da Babilônia. Rompidas as fronteiras do Oriente, Nabonido migrara para a Península Ibérica, fizera fortuna em Lisboa e, no início do século XIX, chegara ao Maranhão, onde multiplicara um patrimônio já bojudo como próspero cotonicultor, senhor de muitas glebas e de inúmeros escravizados. Notabilizara-se por compelir mulheres negras a parirem até o óbito, a fim de ampliar sua escravaria.

            Após o falecimento da neta de um sangoma — ainda adolescente, morta no parto — o ancião angolano teria enunciado sortilégios que as tecelãs do destino escolheram transpor à descendência do senhor de engenho com o selo da esterilidade: doravante, em cada geração, apenas uma mulher geraria; esta, quando surgisse, teria prole numerosa, enquanto as demais, estéreis, seriam abandonadas pelos consortes ou condenadas à solidão perpétua.

            Quando o ventre da primeira-dama arredondara em visível estado gravídico, dizia-se que ela, enfim livre do anátema ancestral, fora a escolhida para gerar naquele ciclo geracional. Estava-se na reta final das eleições; a cidade fervilhava. Campanhas difamatórias em redes sociais associavam a família do chefe do Executivo municipal a maldições que recairiam sobre toda a municipalidade.

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            Dezenas de comunidades quilombolas daquela urbe, articuladas pelo movimento negro local, exigiam a alternância de poder, com um projeto político popular que interrompesse os mandatos sucessivos da linhagem historicamente associada aos horrores da escravidão. A reeleição dependia, também, de afastar o espectro da esterilidade simbólica: a esposa do prefeito não podia jazer sob tão insólito estigma.

            Como a mão que se amolda ao veludo da luva, o surgimento do bebê abandonado preencheu a dimensão lacunar que o natimorto insculpira na família. Nunca se souberam as cifras que envolveram a operação na clínica particular da capital. Bastou que o obstetra responsável pelo atendimento declarasse como nascido vivo o bebê rejeitado, colocando, em um pequeno féretro, o natimorto — sepultado em silêncio no jardim da residência do prefeito, ao pé de um jasmineiro. O segredo era conhecido apenas pelos pais adotivos, pela equipe médica e pelos avós paternos.

            A criança cresceu acreditando-se herdeira natural daqueles  que comandavam a res pubicae citadina. Supunha-se descendente de árabes e portugueses; chamava-se Nabuco — não em homenagem ao abolicionista brasileiro, mas a Nabucodonosor, monarca da Babilônia. A escolha do prenome sempre lhe parecera excêntrica, mas revestida de uma aura nobiliárquica.

            Educado nos melhores colégios, formado em Direito por universidade de prestígio, cedo recusou a herança política que lhe era oferecida como um cetro inevitável. Havia nele uma recusa instintiva — quase visceral — ao exercício do poder tal como o aprendera à mesa familiar. Em vez disso, tornou-se advogado de uma ONG dedicada à defesa de pessoas em situação de rua e egressos do sistema prisional. Foi nesse ofício que conheceu o motorista da instituição, ex-detento do Complexo Penitenciário de Pedrinhas:

            — Sabe, doutor Nabuco, quando eu estava encarcerado, conheci um homem daqui da cidade que seria executado na rebelião de Pedrinhas anos depois. Ele me contou que a família se desestruturou após um ancestral de um político — cujo nome preferiu não declinar — tê-los coagido a vender sua propriedade por preço vil. Depois que denunciaram as ameaças, passaram a ser perseguidos: forjaram flagrantes, tentaram corromper adolescentes, tudo em conluio com setores da própria polícia. A família dissolveu-se entre prisões, mortes e desaparecimentos.

            Enquanto ouvia o relato, o coração do jovem advogado acelerava-se e se compungia como se escutasse a narrativa de sua própria origem — não obstante soubesse que aquela história nada tinha que ver, em termos imediatos, com sua vida eivada de privilégios nababescos. Ainda assim, algo nele reconhecia aquele sofrimento como um espelho invertido. Naquela noite, Nabuco sonhou.

            À porta de um cemitério, sob a luz mortiça de um poste, uma mulher esquálida, claramente vitimada pela dependência química, fitava-o com olhos emoldurados no sofrimento do rosto vincado por rugas precoces. Sua voz era rouca, mas firme:

            — Há segredos que melhor seria não desvelar. Mas nada há de oculto que não seja clarificado pelo lampejo da verdade.

            Ao despertar, o perfume distante de jasmineiros parecia invadir-lhe o quarto. Desde então, um desejo violento, quase orgânico, passou a crescer dentro de si. Não era simples curiosidade: tratava-se de uma pulsão opressiva, como se o próprio corpo lhe exigisse resposta. Oprimido por tal ânsia, Nabuco confiou-se a um amigo de infância, bioquímico respeitado, proprietário de um discreto laboratório na cidade — homem afeito ao sigilo e avesso a escândalos —, que lhe prometeu absoluto silêncio, quaisquer que fossem os resultados. Munido de fios de cabelo de seus pais, submeteu-os, juntamente com o próprio material genético, a um exame de paternidade conduzido com extremo cuidado. O laudo confirmara a suspeita.

            Não compartilhava da identidade cromossômica daqueles que o haviam criado. Não lhes pertencia biologicamente. Intimamente, sabia-se filho daquela mulher consumida pelo crack que lhe aparecera à porta do cemitério — a mesma que o parira sobre a lápide fria e o abandonara à soleira do poder; sabia-se parente do presidiário dizimado na rebelião carcerária; sabia-se legatário dos despossuídos.

            A revelação parecia explicar sua rebeldia desde a mais tenra idade, sua repulsa instintiva ao status quo, sua incapacidade de naturalizar privilégios. Ainda assim, o dilema ético lhe esmagava o espírito: como deflagrar a verdade e fazer justiça sem destruir aqueles a quem amava? Amava os pais adotivos. Fora bem tratado, educado, protegido. Não podia culpá-los pelos delitos dos ancestrais, tampouco imputar à mãe biológica — e a um pai desconhecido — as violências estruturais que os haviam engolido. Compreendeu, então, que não lhe cabia vingança, mas transmutação.

            Era necessário converter a dor em arte. A única forma honesta de fazê-lo seria manejando a adaga que melhor dominava: as palavras. Assim nasceu um romance que seria publicado dois anos depois e plenamente compreendido apenas por três pessoas: ele próprio e seus pais. Os avós, que conheciam o segredo, já haviam falecido quando a obra veio à lume. O título era O Monarca do Cárcere de Babel, cuja trama jazia, em apertada síntese, na quarta capa:

******

            Durante o reinado de Dario I, quando o Império Aquemênida estendia sua sombra sobre a Babilônia e o monarca persa era aclamado como Rei de Babel, a ordem do mundo parecia inabalável. Palácios erguiam-se sobre ruínas antigas, leis estrangeiras governavam destinos alheios e a cidade, outrora soberana, sobrevivia sob o peso de uma dominação que confundia poder com eternidade.

            É desse cenário de opressão que emerge um homem sem nome. Arrancado das profundezas de um cárcere, ele não apenas conquista a própria liberdade, mas arrasta consigo outros condenados — irmãos de infortúnio — para fora da escuridão. O que começa como fuga transforma-se em chama. O que era silêncio converte-se em levante. Em pouco tempo, a Babilônia volta a ouvir o rumor da insurreição, e os persas descobrem que nenhum império está a salvo quando os humilhados se levantam.

            Mas o coração desta narrativa não reside apenas na guerra ou na política. No desfecho, a revolta revela sua face mais trágica: o líder rebelde descobre ser filho do próprio Dario, fruto da violência cometida contra uma jovem da aristocracia babilônica. Irmão, portanto, do futuro rei Xerxes, ele carrega em seu corpo a contradição absoluta — o sangue do opressor misturado ao do povo subjugado.

            A mãe, destinada a um casamento principesco e a um futuro de prestígio, jamais se libertou do trauma da violação. Privada de seu destino e da própria voz, lançou-se de um penhasco quando o filho ainda era um bebê, deixando como herança não apenas a dor, mas uma pergunta impossível de silenciar: é possível libertar um povo sem confrontar as próprias origens?

            Ao compreender que expulsara de Babilônia o homem que lhe dera a vida, o antigo prisioneiro reconhece que a justiça histórica nem sempre coincide com a reconciliação íntima. Ainda assim, sabe que, ao derrubar o tirano, honrou o sangue de sua mãe e a memória de seus ancestrais, escolhendo a fidelidade aos mortos em vez da submissão aos vivos.

            Entre o épico histórico e a tragédia íntima, esta obra é um romance sobre identidade, culpa e redenção — uma reflexão poderosa sobre como a violência funda impérios, destrói destinos e, paradoxalmente, pode gerar aqueles que ousam enfrentá-la.

*****

            As múltiplas correlações entre as estratégias políticas do personagem Dario, os artifícios pelos quais o povo se deixava ludibriar e a inevitabilidade do retorno dos segredos à superfície foram suficientes para que seus pais reconhecessem, na tessitura alegórica da obra, a verdade que o filho jamais lhes dissera em voz alta.

            Após o lançamento do livro, Nabuco migrou para São Paulo. Nunca mais regressou à província maculada por injustiças. Escolhera a liberdade em detrimento do ergástulo dos privilégios. E assim, recusando a coroa matizada pelo sangue de seus infelizes antepassados, tornar-se-ia bardo da corte de seus próprios sonhos, cultivados na planície da esperança que abrigava na alma.

Theotonio Fonseca de Sousa é Professor, Escritor e Advogado.

 

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