
Os recentes fatos relacionados às imagens divulgadas pelo governo norte-americano sobre a possível existência de OVNIs parecem não ter causado grande impacto entre os itapecuruenses. Pelo menos foi essa a impressão que eu tive ao observar atentamente os diálogos da velha guarda da Avenida Beira-Rio (Carrinho, Luizinho, Dominguinhos e José Antônio, mais conhecido como Pimba, ou simplesmente, Papai). Nenhum deles pareceu dar a mínima importância ao assunto.
Mas nem sempre foi assim.
Houve um tempo em que qualquer notícia envolvendo extraterrestres era suficiente para provocar inquietação nas noites de Itapecuru Mirim. Nas rodas de conversa dos pontos mais tradicionais da cidade, o comércio do Martilho, do Toba, do João Jerônimo, na quitanda do Sadique, no Chico Baratão, no Bar do Permínio e em tantos outros lugares, o tema era praticamente único: os ETs. Mais precisamente, o temido aparecimento do Chupa-cabra.
As histórias do ET de Varginha e do Chupa-Cabra, a misteriosa criatura que atacava rebanhos ganhara força entre 1996 e 1997, principalmente em cidades do interior de Minas Gerais e São Paulo.
Ao meio-dia, a extinta Rádio Alternativa FM noticiava casos de pecuaristas que encontravam seus animais mortos, com perfurações no pescoço e sem uma gota de sangue. Também surgiam relatos de jovens que afirmavam ter visto criaturas estranhas em terrenos baldios ou luzes misteriosas cruzando o céu. Isso era o bastante para deixar adultos e crianças assustados.
O tempo passou e hoje, poucos demonstram interesse pelos documentos e imagens que os Estados Unidos, por meio do Pentágono, vêm divulgando sobre fenômenos aéreos não identificados, mesmo com o envolvimento de instituições respeitadas como a NASA. O fascínio parece ter dado lugar à indiferença.
Talvez a modernidade tenha trazido mais informação, mas também trouxe muita descrença. As histórias que antes alimentavam o imaginário popular perderam espaço. Quem se lembra, por exemplo, da famosa carta que anunciava três dias de escuridão na virada do milênio? A profecia, supostamente inspirada em Nostradamus, espalhou medo por toda parte, a igreja católica vivia lotada de fiéis carregando litros de água, velas e objetos que seriam necessários para enfrentar os dias de caos anunciados. O receio do fim dos tempos era tão grande que até pessoas bastante prudentes davam algum crédito à história.
Os jovens de hoje dificilmente imaginam essas lendas. Também não sabem como era comum ver o carro do alho passando pelas ruas, enquanto nossos avós compravam tranças para pendurar na cozinha. Não conheceram os velhinhos cegos que cantavam e tocavam reco-reco na feira, nem o mistério que cercava a chegada dos ciganos, vestidos com roupas coloridas, lenços na cabeça e adornados com pulseiras, colares e brincos reluzentes.
Talvez por isso o passado pareça tão fascinante, havia menos tecnologia, menos certezas e muito mais espaço para a imaginação. Entre ETs, chupa-cabras, profecias apocalípticas e personagens inesquecíveis das ruas de Itapecuru, a vida parecia mais rica em histórias e, de certo modo, mais encantadora.
Samira Fonseca é Mestra em Letras pela Universidade Federal do Tocantins – UFT e membro da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes – AVLA.