
Quem caminha pela rua Coronel Catão não imagina que, onde hoje fica a parte dos fundos da loja Noroeste, existiu uma casa toda pintada de branco, inclusive a mureta da frente, naquele local funcionava uma casa de apostas. Todos os dias, homens da cidade dirigiam-se até lá para se divertir com as tradicionais partidas de baralho e outros jogos. Muitas vezes, entrei naquela residência, onde se ouvia Adelino Nascimento e que exalava a cigarro US, à procura do meu tio. A minha mãe, irmã dele, reclamava e o convidava deixar a mesa de jogos; ele, porém, apenas ria e dizia que seria somente uma partida e que logo iria para casa.
A introdução deste breve texto tem o propósito de lembrar que o problema dos jogos de azar não surgiu com o jogo virtual do Tigrinho. Essa prática é muito mais antiga do que se imagina, basta recordar que, ainda na infância, víamos nossos pais (bicheiros clandestinos) com uma cartela simples em mãos, na qual podíamos escolher um dos 25 animais apresentados nela, cada animal correspondia a quatro dezenas e ao chegar ao último, a vaca, encontrávamos as dezenas de 97ao 00. Nossos olhos brilhavam diante da escolha de borboletas, cachorro, cabra, jacaré, águia, avestruz, burro, leão, tinha até o veado e tantos outros.
Crianças como eu e você, leitor, sequer imaginávamos que aquilo se tratava de um jogo de azar, os nossos pais, porém, costumavam perguntar se havíamos sonhado na noite com algum animal, na esperança de utilizar o sonho como palpite e conquistar o tão desejado prêmio.
Correu o tempo, e veio a onda dos caça-níqueis, que eram máquinas, instaladas em bares, comércios e tantos outros locais, nelas apareciam figuras de animais ou frutas. O jogador comprava as fichas, inseria-as na máquina e acionava uma alavanca para fazer girar três imagens. Se fizesse a combinação desejada pela máquina, ele ganhava determinado valor; caso contrário, perdia o dinheiro apostado.
Essas histórias de décadas atrás servem para nos lembrar de uma conhecida frase atribuída ao químico Antoine Lavoisier, que diz: “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Cá estamos nós, em pleno século XXI, escrevendo, debatendo e falando sobre os jogos de azar, afinal, os antigos caça-níqueis não desapareceram por completo. Em determinados locais, como shoppings, supermercados e rodoviárias, encontramos máquinas nas quais se insere uma cédula e se movimenta uma garra mecânica para tentar capturar um bichinho de pelúcia. À primeira vista, parece uma brincadeira inocente, mas a cena nos remete tanto a máquina caça-níquel (caça-cédulas), quanto à antiga tabela do jogo do bicho, na qual nossos pais nos pediam que escolhêssemos um animal. Agora somos nós que escolhemos o animal e mexemos na máquina.
Entretanto, o problema ganhou novas proporções com a popularização dos jogos virtuais, como o Tigrinho, porque as plataformas de apostas não consomem apenas o dinheiro dos jogadores, elas podem comprometer patrimônios e destruir vidas. A busca incessante por ganhos, somada à dificuldade de controlar o impulso de apostar, induziu pessoas a vender imóveis, automóveis e terrenos, desfazendo-se de bens que levaram anos para conquistar. Em situações extremas, o desespero provocado pelas perdas financeiras, contribuiu muito para tragédias, como o suicídio.
As chamadas bets tornaram-se um problema de grande repercussão nacional, embora elas patrocinassem diversos times de futebol, o que de certa forma acabava contribuindo para o financiamento de contratos milionários de jogadores, além de estamparem suas marcas em programas esportivos e em diferentes espaços da mídia. Não evitou o debate público sobre a regulamentação das apostas e os prejuízos que elas causaram à população brasileira.
Tudo passa, menos a necessidade que as pessoas têm de fazer uma fezinha na esperança de ganhar milhões. A busca pelo dinheiro fácil, alimentada pela ilusão de ganhos rápidos, consume aos poucos tudo aquilo que alguém levou anos para construir.
Diante disso surge a pergunta você quer saber o palpite do bicheiro nos dias de hoje? Com toda certeza ele afirma que, jogos de azar podem se tornar verdadeiros devoradores de sonhos e patrimônios do jogador.
De todo esse assunto trágico, a única coisa de que tenho saudade são das figuras de minha mãe, dona Maria José do meu tio, Zé. Apesar de tudo, a imagem dos dois caminhando em direção às suas residências, é o que mais tem bonito em minha memória. A família Trator ainda vive pelo menos em minhas lembranças.
Samira Fonseca é Mestra em Letras pela Universidade Federal do Tocantins – UFT e membro da Academia Vargem-grandense de Letras e Artes – AVLA.