
Ao contrário do que alguns autores contemporâneos tentaram refutar, a cidade de São Luís do Maranhão foi fundada e colonizada por franceses no ano de 1612. Documentos históricos ignorados de forma sumária por estes autores, proposital ou involuntariamente, provam o fato.
No mundo acadêmico ludovicense, em especial o curso de História das universidades Federal e Estadual do Maranhão, UFMA e UEMA, respectivamente, a obra A Fundação Francesa de São Luís e Seus Mitos, da professora Maria de Lourdes Lauande Lacroix, é abordada como verdade absoluta por boa parte dos alunos que concluem a licenciatura na área.
Basicamente Lacroix afirma que a incursão gaulesa no Maranhão fora criação de intelectuais para justificar um "mito" e vender a ideia de uma São Luís afrancesada que fundamentasse o nascer da "Atenas Brasileira" no século XIX. A grande problemática nesta afirmação é a ausência de pesquisa mais profunda e específica.
A leitura obrigatória, ainda que en passant, de duas obras para aqueles postulantes ao árduo trabalhado de questionar a história do Maranhão, História da Missão dos Padres Capuchinhos no Maranhão e Suas Circunvizinhanças, de Claude D'Abbeville, e Continuação História das Coisas Mais Memoráveis Acontecidas Maranhão nos Anos 1613 e 1614, de Yves Des-Veaux, ambos padres integrantes do empreendimento colonizador determinado pela rainha regente Maria de Medicis, é fundamental.
Não se trata de peça de ficção, mas sim do relatório detalhado sobre o início do que a coroa francesa denominou de França Equinocial. O primeiro descreve os preparativos, a insistência de Des-Veaux sobre a viabilidade da colonização depois de ter passado dois anos no Maranhão como náufrago e lutado ao lado dos Tupinambás contra seus inimigos, também nativos, na ilha de upaon-açu antes de 1612, até as providências tomadas no ato efetivo da colonização.
O segundo relatório, mais minucioso ainda, registra fauna, flora, geografia, língua, costumes e a sociedade dos nativos que habitavam as ilhas e parte do litoral. Não eram apenas anotações, eram testemunhos de quem viveu ali, se relacionou com aquele povo, sentiu as agruras, alegrias, vitórias e derrotas das comunidades entre si.
Apenas o conhecimento destes documentos históricos reunidos e publicados em livros nos anos de 1614 e 1615, nesta ordem, provam de forma categórica a fundação da capital maranhense.
O que é chamado de "criação de um mito" por intelectuais maranhenses no final do século XIX e início do século XX para justificar a "Atenas Brasileira" nunca foi "mito", tampouco partiu da genialidade de autores maranhenses. Em verdade este período é marcado na literatura como apogeu do romantismo, escola literária que buscou exaltar os heróis nacionais, a natureza, feitos históricos das nações européias.
Na França a Revista de Paris, a partir de 1835, publicou uma série de artigos sobre os antigos viajantes franceses, seus feitos, descobertas e colonizações em outros mundos. É neste contexto que o pesquisador francês Ferdinand Denis descobre um exemplar da obra de Des-Veaux nos arquivos da biblioteca particular do rei Luís XIII, um presente do almirante François de Razilly que participou da expedição de 1612.
Pela raridade da obra e o impacto dela na sociedade da sua época, toda a glória da França Equinocial voltou à tona e repercutiu no continente inteiro, também fora dele. Novas edições foram publicadas e há registros de que o próprio D. Pedro II, Imperador do Brasil, patrocinou tiragens dos escritos de Des-Veaux como forma de perpetuar os acontecimentos no Norte de seu país.
Para sacramentar o pioneirismo comandado por Daniel de La Touche, senhor de La Ravardiere, e eliminar qualquer dúvida, suposição ou contestação ao ato da França em terras maranhenses, um ofício assinado pelo capitão-mor do Maranhão, Alexandre de Moura, em 24 de setembro de 1616, disponível Arquivo Histórico Ultramarino português, é fundamental.
No documento o capitão-mor comunica ao rei D. Felipe II a tomada do Forte de São Luís construído pelos franceses no Maranhão, a necessidade de povoar a região, além do reconhecimento de alguns rios, edificação e benfeitorias implementadas pelos "invasores". Narra sua partida de Pernambuco rumo ao Maranhão com 9 navios, mais de seiscentos soldados, em 5 de outubro de 1615, até a conquista da fortaleza.
Outro ponto sobre o qual jamais deveria haver dúvidas é referente aos vestígios da colonização na capital maranhense. Há muito mais que vestígios, existem provas, documentos, testemunhos e relatos. O que não restaram foram ruínas, devido à prática Ibérica de exploração predatória das colônias sob seu domínio.
Este processo consistia na posse do território, subjugar os povos locais, edificar o poderio português, literalmente, sobre o que havia de mais sagrado no lugar e, por fim, implantação dos valores lusitanos na região, impondo língua e costumes aos conquistados.
Como herança francesa em São Luís resistem ao tempo o próprio nome da cidade, homenagem a Luís XIII, rei de França; as localizações do palácio dos Leões (Forte de São Luís), Igreja da Sé (capela do forte) e Seminário de Santo Antônio (Convento dos capuchinhos), no centro histórico da capital. Os prédios atuais são remanescentes das edificações estrategicamente construídas em cima de estruturas levantadas pelos franceses no ano de 1612 com objetivo de apagar qualquer vestígio gaulês e reafirmar a presença portuguesa na ilha de upaon-açu.
A eternidade não deixou apagar esta semente plantada entre as embocaduras dos rios Bacanga e Anil. Os portugueses denominaram Ilha das Vaccas, Ilha de Nazareth, Ilha do Ferro e por fim Alexandre de Moura a chamou Ilha de Todos os Santos.
Nenhuma das tentativas logrou êxito em sucumbir a saga daqueles homens que aqui chegaram cheios de sonhos, derramaram suor, sangue e entregaram a vida para que hoje, 414 anos depois, a cidade continue sendo o ponto azul em meio à imensidão verdejante do Brasil.
De acordo com D'Abbeville, a chagada da expedição comandada por Daniel de La Touche e François de Razilly, composta por três velas (embarcações) chegou ao Maranhão no dia 26 de julho de 1612, uma quinta-feira. Aportaram na ilha pequena, chamada pelos nativos de Upaon-mirim. Ali aguardaram até que os Tupinambás autorizassem o desembarque na grande ilha de Upaon-açu, o que aconteceu somente no domingo, 29. Celebraram a Santa Missa e iniciaram as tratativas para o início do projeto de colonização.
O dia 8 de setembro é considerado fundação da cidade por ser esta a data na qual os chefes das 27 aldeias da grande ilha aceitaram participar da cerimônia da Santa Missa e selar aliança com os franceses. A celebração acontece no convento dos capuchinhos, atual Convenção de Santo Antônio, saindo em procissão ao Forte de São Luís.
Parabéns, Ilha Rebelde.
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*Alberto Júnior é jornalista, pesquisador, escritor membro da Academia Itapecuruense de Ciências, Letras e Artes (AICLA) e da Sociedade Brasileira Para o Progresso da Ciência (SBPC)
Referências Bibliográficas