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Gênero, Sexualidade e Patriarcado em ‘A ASA ESQUERDA DO ANJO’, de Lya Luft

A obra constitui uma narrativa que discute inúmeros aspectos inerentes à opressão de gênero

11/07/2021 12h43 Atualizada há 3 meses
Por: Redação Fonte: Theotonio Fonseca
Foto: Ilustração
Foto: Ilustração

I

A escritora catarinense Lya Luft representa uma das mais fecundas ficcionistas e cronistas brasileiras contemporâneas, com dezenas de obras publicadas notabilizou-se por discutir desde a primeira obra aclamada pela crítica, ‘As parceiras’ de 1980, aspectos relacionados à condição da mulher como a opressão patriarcal no ambiente familiar, a imposição de valores e expectativas domésticas e comportamentais que assinalam dimensões clássicas da violência de gênero que permeia historicamente a existência social da mulher.

A obra “A asa esquerda do anjo”, publicada em 1981 constitui uma narrativa que discute inúmeros aspectos inerentes à opressão de gênero, posto que, a personagem principal Gisela Wolf experiência das expectativas sociais acerca do casamento, à felicidade conjugal que esconde dramas e sofrimento a exemplo do que vivencia sua genitora e tias, cada personagem feminina que perpassa a trama narrativa enseja uma reflexão da protagonista e marca sua vida interior com a construção de um olhar que problematiza a vida a partir do vivenciado.

II

Nas últimas décadas do século XX os estudos de gênero desenvolveram-se na observância de inúmeras particularidades que perpassam uma pluralidade de aspectos, pois observou-se que as opressões do patriarcado denunciadas por pensadoras como Simone de Beauvoir, ganhavam contornos específicos quando a mulher oprimida era marcada por outras dimensões como a social e a étnica, posto que a perspectiva interseccional demarca a necessidade de uma epistemologia que contemple a tríplice face do julgo que se abate sobre a mulher.

A construção de narrativas que possuem como protagonistas personagens femininas que vivenciam estes problemas consolidou-se na literatura contemporânea, de Toni Morrison a Lygia Fagundes Telles, dentre as autoras brasileiras que se debruçara sobre essa aspectos da condição da mulher destaca-se a autora catarinense Lya Luft que na obra ‘ A asa esquerda do anjo’ conseguiu abordar através da complexa subjetividade da protagonista, Gisela Wolf, mas também das outras personagens femininas do romance, diversos aspectos inarredáveis a uma compreensão problemática da mulher no Brasil

A herança patriarcal de matriz germânica, o amor platônico homoafetivo de Gisela por sua prima Anemarie, interditado pelo tradicionalismo heteronormativo da familia Wolf, personificado pela figura aristocrática de Frau Wolf; as ideias eugenistas conservadas na família, tão comuns no discurso pseudo cientifico, racialista oitocentista, pois “ a partir de 1870 introduzem-se no cenário brasileiro teorias do pensamento até então desconhecidas, como o positivismo, o evolucionismo, o darwinismo.”( SCHWARCZ 1993, p.57).

Compreender a confluência de categorias epistêmicas como gênero, sexualidade e patriarcado na narrativa luftiniana para além do aspecto crítico e sociológico reveste-se de relevância social no contexto atual em que o aumento de índices de violência doméstica, radicalizadas no elevado quantitativo de feminicídios e em um contexto político reacionário no qual discursos políticos e religiosos convergem na defesa de um moralismo que ressuscita paradigmas familiares que historicamente subjugaram a mulher, pois “ nas sociedades ocidentais modernas, a sexualidade foi objeto de controle por parte da Igreja, hegemônica até o século XVIII, no que a sucederam, sem jamais destrona-la totalmente, a Medicina e os Direitos Civil e penal”( HIRATA 2009,P.232)

O controle do corpo da mulher expressa a perpetuação de um projeto de poder, pois “para além da vigilância individual dos sujeitos, o heterossexismo orquestra a organização da vida social, disseminando sua ideologia nas instituições, nas formas de ensino, nas regras de convivência social, na mídia, na educação familiar. (MARRO 2018, p.141)

O processo de formação civilizatório do Brasil, desde o período colonial até a contemporaneidade é marcado pela observância do que de Heleieth Saffioti denomina de princípio da segregação sexual, de matriz ibérica e aclimatada na experiência colonial, perpassada pela violência de gênero e comportamentos misóginos característicos de sociedades alicerçadas em uma base manifestamente autoritária

A misoginia se manifesta de muitas formas, que vão desde a exclusão social até a violência de gênero. Ela aparece retratada igualmente na antiga formação patriarcal de nossa sociedade, a qual carrega, até a atualidade, a certeza do privilégio masculino, a banalização da violência contra a mulher e a tentativa de sua objetificação sexual. (SCHWARCZ 2019, p.186)

Assim, a promoção da igualdade de gênero no Brasil pressupõe a superação do autoritarismo que nos caracteriza e se manifesta no espólio do colonialismo, onde o patriarcado demarca papéis sociais dos quais a mulher não deve afastar-se e a despeito do advento de conquistas políticas e sociais deflagradas pela luta feminista contra as estruturas de opressão, conquistas inconclusas hoje são ameaçadas pela metanarrativa falo logocêntrica que rediviva em discursos políticos e sermões religiosos ameaça a emancipação integral da mulher das estruturas binárias a que fora historicamente enclausurada.

III

A temática em apreço, nas dimensões do que a narrativa luftiniana permite-nos desenvolver possui ampla literatura acadêmica, que sob enfoques diversificados oportunizam um olhar amplo e transdisciplinar, a começarmos pelo clássico que inaugurara os estudos científicos sobre gênero e classe no Brasil, “ A mulher na sociedade de classes: mito e realidade” (Editora Expressão Popular, 2013) de Heleieth Saffioti.

Nesta obra demonstra -se que “o aparecimento do capitalismo se dá, pois, em condições extremamente adversas à mulher. ( 2013, p.65) e analisa-se a evolução da condição da mulher no Brasil em um longo capítulo que aborda da posição social da mulher no contexto ‘escravocrata-senhorial’ às manifestações feministas impulsionadas por Bertha Lutz na década de 1920, compreender dialeticamente a instrução feminina no contexto colonial e imperial e a observância de uma dimensão axiológica de embriogênese ibérica a que a autora denomina ‘ princípio da segregação sexual’ é relevante para entender a opressão de gênero presentificada na narrativa luftiniana.

A opressão de gênero é ressignificada e reinventada como atesta a obra “ Mulheres e caça às bruxas” de Silvia Federici que mostra que estigmas medievais de associação das mulheres à bruxaria, não encontra amparo apenas no Malleus Maleficarum ou na teologia de autores misóginos, mas na África sub saariana hodierna, sendo indissociável a violência patriarcal ao próprio sistema capitalista, pois, “O ataque contra as mulheres, vem, sobretudo, da necessidade de o capital destruir o que não consegue controlar e degradar aquilo de que mais precisa para sua reprodução”.(FEDERICI 2019, P.140), ou seja, o corpo, pois o corpo também expressa uma dimensão política e o capitalismo utiliza-se como tecnologia de dominação o que a filósofa italiana chama de ‘ lógica da caça às bruxas”, o que enseja um questionamento essencial

Por que as mulheres – cujos corpos trouxeram a este mundo todas as pessoas que já viveram e que não apenas procriam, mas nutrem as crianças e reproduzem diariamente suas famílias – devem ser alvo de tanta violência, incluindo as caças às bruxas. (FEDERICI 2019, p. 139)

Não obstante a família Wolf seja de origem germânica, o patriarcado ocidental independente de sua gênese geográfica como que alimentado por vasos comunicantes que envolvem da religiosidade à sexualidade são assinalados por características em comum, assim, o principio segregação sexual, “ integrante da tradição ibérica e validado pela Igreja Católica, iria, assim, pesar profundamente na formação da personalidade feminina, fazendo da mulher um ser sedentário, submisso, religioso, de restrita participação cultural”( 2013. P.267)

A linguagem também constitui um instrumento de dominação, ao longo do processo de apropriação das américas centenas de etnias foram dizimadas em genocídios que não apenas selaram o fim de povos mas também de línguas e culturas com seus sistemas de crenças, cosmogonias e legados, a interdição da língua expressa não apenas o sinal de superioridade que perpassa o opressor a exemplo do que ocorrera no processo colonizatório, mas também a imposição de um código único com o qual o sujeito deverá manifestar sua subjetividade e seu ser - estar no mundo.

Esta perspectiva está presente na narrativa através da imposição de Frau Ursula Wolf de que sua descendência deveria comunicar-se exclusivamente em alemão.

Todos falávamos alemão na casa de minha avó, embora, à exceção dela, todos tivéssemos nascido no Brasil. Minha mãe passara dificuldades, minha mãe passara dificuldades, mas aprendera o novo idioma usando um vocabulário simples, errando as declinações, falando com um sotaque do qual eu achava graça, sempre brincávamos por causa dele. Às vezes pedia-me que explicasse alguma palavra cujo sentido não pegara bem. Eu sentia um pouco de pena, mas ela encarava tudo com bom humor, mesmo o fato de eu ser obrigada a falar só alemão também com meu pai em casa (LUFT 1991, P.20-21)

O excerto transcrito mostra não apenas a imposição da língua como dimensão do colonialismo tão perpassado por preconceitos linguísticos mas revela também o preconceito social e geográfico que marca a existência da mãe de Gisela Wolf, possivelmente nordestina, Maria da Graça Moreira Wolf, cujo casamento com Otto Wolf era visível na sensibilidade da protagonista ainda que criança “ sinto o mal-estar na família, por que Otto Wolf se casou com uma brasileira? Não pronunciam a acusação, pois todos o respeitam, mas está no ar.” (LUFT 1991, P.27), o racismo eurocêntrico da família Wolf não era à época desmotivado pelas autoridades brasileiras, mas chancelado por política eugenistas que por décadas grassaram no Brasil

Tingido pela entrada maciça de imigrantes – brancos e vindos de países como Itália e Alemanha -, introduziu-se no Brasil um modelo original, que, em vez de apostar que o cruzamento geraria a falência do país, descobriu nele as possibilidades de branqueamento. (SCHWARCZ2012, p. 39)

Um aspecto importante a ser destacado na trama narrativa reside nos impactos psicológicos do sexismo heteronormativo sobre a formação da subjetividade da protagonista Gisela Wolf que nutre por Anemarie, sua prima, um amor platônico e idealizado, que não poderia consumar-se em uma estrutura familiar assinalada pela heteronormatividade, segundo Iuri Assunção (2018, p. 39)

“A sociedade heterosexista impões comportamentos heterossexuais, não só nas relações sexuais e afetivas, mas dentro de todo o modelo estruturante de sociedade, definindo papéis e posições sociais de acordo com o sexo, a sexualidade e a identidade de gênero. ”

Um conjunto de estudos acerca do pensamento feminista brasileiro encontra-se na obra “ Pensamento feminista brasileiro: formação e contexto” (Bazar do empo, 2019) organizado por Heloísa Buarque de Holanda, que também assume a coordenação da obra “ Pensamento feminista hoje: perspectivas decoloniais”, reunião de ensaios que postulam de um feminismo afro-latino-americano a uma ruptura epistemológica com o feminismo ocidental.

É relevante que os estudos literários estejam alicerçados no rigor do método, posto que, consoante Roberto Acízelo de Souza, estes nasceram em meados do Século XX sob a égide epistêmica da relevância metodológica, com o advento da obra ‘Teoria da Literatura’ de René Wellek e Austin Warren, posto que “ Como sabemos, o tratado fundador da disciplina – o influente Teoria da literatura, de René Wellek e Austin Warren, publicado em 1949 –, se estruturou justamente  tendo em vista a questão do método.” (Souza, 1994, p.471-476)

A interdisciplinaridade demarca as zonas fronteiriças do saber em uma perspectiva crítica e problemática, os estudos de gênero incorporam em seu espectro epistêmico contribuições advindas da sociologia, antropologia, psicologia e psicanálise, por outro lado, os estudos literários também evocam a necessidade de uma abordagem que se desenvolva na confluência de saberes.

Considerações finais

A compreensão da narrativa luftiniana, a partir das categorias gênero, sexualidade e patriarcado encontra fundamentação na crítica literária feminista e no contributo que outras vertentes do saber forneceram conceitualmente aos estudos literários, a exemplo da psicanálise e das ciências sociais.

As relações de gênero, raça e classe que perpassam historicamente a vida das mulheres no Brasil, profundamente marcado pelo patriarcado e o surgimento da categoria gênero marca uma conquista das feministas contemporâneas, no sentido de estabelecer novas compreensões teóricas acerca dos questionamentos que caracterizam o feminismo, introduzindo novos debates sobre posturas e comportamentos e relativizando os postulados tradicionais de dominação e submissão entre os sexos.

Tais leituras surgem com a emergência de novas abordagens teórico-metodológicas como a psicanálise, a linguística e o pós estruturalismo, que oferecem novos elementos de investigação científica e apontam novas trilhas para a construção do conhecimento acadêmico. (BELLIN 2011, p. 7)

REFERÊNCIAS

ANGELA, Arruda... [et al.]; organização Heloísa Buarque de Hollanda. Pensamento feminista brasileiro – formação e contexto. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2019.

BELLIN, Greicy Pinto. A crítica literária feminista e os estudos de gênero: um passeio pelo território selvagem. Revista Fronteira Z, São Paulo, n. 7, dezembro de 2011. 

FEDERICI, Silvia. Mulheres e caça às bruxas – da Idade Média aos dias atuais. São Paulo: Boitempo, 2019.

HIRATA, Helena [et al.] (orgs.). Dicionário crítico do feminismo. São Paulo: Editora UNESP, 2009

LUFT, Lya. A asa esquerda do anjo. São Paulo: Siciliano, 1991.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Sobre o autoritarismo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças – cientistas, instituições e questão racial no Brasil 1870 – 1930. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. Nem preto nem branco, muito pelo contrário: cor e raça na sociedade brasileira. São Paulo: Claro Enigma, 2012.

KOLONTAI, Alexandra. A nova mulher e a moral sexual. São Paulo: Expressão Popular, 2011.

VAREJÃO, Adriana. [et al.]; organização Heloísa Buarque de Holanda. Pensamento feminista hoje – perspectivas decoloniais. Rio de Janeiro: Bazar do tempo, 2020.

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https://www.scielo.br/pdf/ea/v17n49/18402.pdf.  Feminismo e literatura no Brasil http://revistaiberoamericana.pitt.edu/ojs/index.php/Iberoamericana/article/viewFile/5799/5944. MATERNIDADE, MITO E IDEOLOGIA NA FICÇÃO DE LYA LUFT

RIBEIRO, Maria Goretti. Da literatura aos mitos: a mitopoética na literatura de Lya Luft file:///C:/Users/Visitante/Downloads/1073-Texto%20do%20artigo-2950-1-10-20130723.pdf.

MELO, Cimara Valim. Lya Luft: Percursos entre intimismo e modernidade. https://www.lume.ufrgs.br/bitstream/handle/10183/4413/000501185.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

FINAZZI-AGRÒ, Ettore. Morte com espectador a persistência do trágico em Lya Luft. http://www.verbum-analectaneolatina.hu/pdf/13-1-14.pdf.

SCHNÄDELBACH, Rosane da Costa. Entre o sonho e o real: um percurso pelo universo dual construído por Lya Luft. https://repositorio.ufsc.br/xmlui/bitstream/handle/123456789/85560/194435.pdf?sequence=1&isAllowed=y.

SOUZA, Roberto Acízelo de.  A questão do método nos estudos literários.  Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 49, n. 4, p. 471-476, out.-dez. 2014.

NOGUEIRA, Leonardo; Hilario, Erivan; Paz, Thaís Terezinha; Marro, Katia (Orgs). Hasteemos a bandeira colorida: diversidade sexual e de gênero no Brasil. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

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